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Bolsa avalia lançamento de minicontratos de ouro
Modelo atual, baseado em barras de 250 gramas,
dificulta ampliação da liquidez dos negócios com o metal, em alta no
exterior
Yolanda Fordelone - AE
Segunda-feira, 19 de outubro de 2009,
03h00
Com o enfraquecimento mundial do dólar, o
ouro acumulou picos de preço na Bolsa Mercantil de Nova York nas duas
últimas semanas. Por aqui, a commodity voltou ao debate na BM&FBovespa,
que também negocia contratos do metal, ainda percebido por parte dos
investidores como uma confiável reserva de valor no longo prazo. Sem
alarde, a Bolsa de São Paulo vem consultando instituições financeiras
que atuam no segmento para colher opiniões e sugestões sobre o
lançamento de minicontratos de ouro nos mercados à vista e futuro - uma
ideia, há tempos, em ponto morto.
No Brasil, o contrato mais líquido é o padrão de ouro disponível (à
vista), de 250 gramas, que custa em torno de R$ 15 mil. “O custo da
aplicação e das taxas são duas grandes barreiras para se aplicar nesse
mercado”, diz o agente autônomo da Contato Investimentos, Eduardo
Munhoz. A taxa operacional, nas compras de contratos à vista, é de 0,4%
sobre o valor negociado. São cobradas também tarifas de emolumentos, de
6,32% do valor da taxa operacional, e de custódia, esta em proporção ao
preço máximo do metal no dia anterior à venda.
A Bolsa admite estar conversando com o mercado sobre a possibilidade,
mas não confirma o lançamento dos minis. Segundo a assessoria de
imprensa da BM&FBovespa, a Bolsa tem a meta de aumentar a quantidade de
produtos disponíveis. “Estamos trabalhando para identificar as
necessidades do mercado, e não descartamos nenhuma hipótese”, informa a
assessoria.
“Atualmente, existe um contrato menor que o padrão negociado na BM&F,
mas a liquidez é muito baixa”, diz o presidente do Grupo Fitta, André
Nunes, referindo-se ao contrato fracionário de 10 gramas. A instituição
foi uma das consultadas pela BM&FBovespa. Segundo Nunes, o principal
motivo para a baixa quantidade de negócios é o fato de as barras de ouro
serem produzidas no formato de 250 gramas. Ou seja, quem negocia os
contratos de 10 gramas não consegue fazer a retirada física do metal. “É
preciso comprar 25 fracionários de 10 gramas se quiser fazer isso”,
explica Nunes.

Grau de pureza
Munhoz, da Contato, acrescenta que o contrato de 10 gramas foi criado
para completar o de 250 gramas, já que o ouro negociado não é 100% puro.
“O ouro da Bolsa é o 995. Ou seja, de 1000 gramas da barra, pelo menos
995 gramas devem ser ouro. Para completar essa diferença, foi criado o
contrato de 10 gramas.”
Para especialistas, ter o ativo fixo na BM&F, mesmo que ele não seja
retirado, é importante para garantir liquidez ao contrato. “O mercado
futuro é ideal para a pessoa se proteger e, por isso, a importância de
ter o ativo físico”, diz Munhoz. “Sem a barra física, fica mais fácil
haver distorções nos preços.”
Atualmente, o contrato mais líquido é o de 250 gramas. Após a compra, a
operação é liquidada no dia seguinte (D+1). O investidor tem a opção de
fazer a retirada física do metal, para guardá-lo, por exemplo, num
cofre. A desvantagem é que, ao decidir vender o ativo, a barra terá que
passar por uma avaliação, na qual é verificada a pureza do metal.
“Nesse processo, perde-se pelo menos dois gramas. Além do que, o
investidor tem um custo”, explica o agente autônomo da Contato
Investimentos. A segunda alternativa é deixar o ouro custodiado na BM&F,
numa das seis instituições autorizadas (Banco do Brasil, Brinks
Segurança e Transporte de Valores, Casa da Moeda, Citibank, Safra e
Santander).
Esta foi a alternativa escolhida pelo investidor Roberto Chiocca, de 32
anos, que aplica no metal há pouco mais de um ano. “Estudos me fizeram
chegar à conclusão de que o ativo é uma boa reserva de valor”, diz
Chiocca, que alocou metade de seus investimentos em ouro 250 gramas. Ele
acredita que o real pode perder valor e, por isso, prefere manter parte
das economias em um ativo historicamente seguro que, no passado, foi
usado como lastro de moedas. “Não comprei contratos pequenos de ouro por
causa da liquidez. No ouro 250 gramas, ela já é prejudicada. No de 10
gramas, mais ainda”, afirma.
A associação de defesa dos consumidores Pro Teste mostrou a dificuldade
da venda em um teste realizado recentemente. Uma barra de 250 gramas foi
comprada por R$ 59,50, após uma hora do lançamento da ordem. No momento
da venda, porém, depois de quatro horas de espera sem que a ordem fosse
efetivada, a associação precisou baixar o preço a R$ 59 para encontrar
alguém interessado, o que significou uma perda bruta de R$ 125.
Contrato de 25 gramas
Entre as propostas enviadas à Bolsa está a de criação de um contrato de
25 gramas. “Nesse tamanho, é possível fabricar barras, o que é
importante para atrair liquidez ao mercado”, diz Nunes, do Grupo Fitta.
Ele explica que a ideia é que, no início, sejam lançados contratos à
vista, como os de 250 gramas. Como a proporção é de um décimo do
contrato padrão, o valor para a aplicação em ouro 25 gramas cairia para
cerca de R$ 1.500, deixando o investimento mais acessível ao investidor
pessoa física.
“À medida que ganhe liquidez, sugerimos que também sejam criados
minicontratos futuros, em real e em dólar”, afirma Nunes. “O contrato
menor à vista e o mini futuro permitiriam até que o investidor fizesse
arbitragem entre os dois mercados.” Todos os contratos seriam vendidos
pela plataforma online da Bolsa, a Webtrading.
Alguns especialistas acreditam que o mercado de ouro ainda possui certo
potencial para atrair investidores. Nunes diz que hoje são negociados
entre 50 kg e 100 kg de ouro por dia. Até o início dos anos 90, época
áurea deste mercado, o volume diário chegava a 10 toneladas – período em
que, na ausência de uma unidade monetária estável no Brasil, o ouro era
uma reserva natural de valor. “Não acho que voltaríamos a este patamar,
mas, sem dúvida, temos como crescer em relação à situação atual”, avalia
o presidente do Grupo Fitta.
Uma parte do mercado avalia, porém, que os minicontratos de ouro futuro
teriam pouca liquidez, a exemplo de outros contratos que não atraíram
investidores, como os de boi gordo e café. “O ouro é tecnicamente uma
reserva de valor, mas tem um poder de uso fraco. Além disso, concorre
com outros ativos seguros hoje acessíveis ao pequeno investidor”,
observa o diretor de marketing e produtos da WinTrade, Roberto Lee,
referindo-se aos títulos do governo negociados pelo Tesouro Direto, os
fundos de investimento conservadores ou mesmo as ações da Vale e
Petrobras.
Fonte: Agência Estado |